terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O erro histórico dos Óscares já tem um culpado


Chama-se Brian Cullinan e foi ele quem deu o envelope errado aos apresentadores. Estaria ele distraído com Emma Stone? A Academia veio agora pedir desculpa.
Martha Ruiz e Brian Cullinan na passadeira vermelha antes da cerimónia com as pastas em que transportavam os envelopes com os vencedores
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Martha Ruiz e Brian Cullinan na passadeira vermelha antes da cerimónia com as pastas em que transportavam os envelopes com os vencedores REUTERS/MIKE BLAKE
Na segunda-feira a PwC, a consultora que há 83 anos trata das votações para os Óscares, já tinha assumido todas as responsabilidades pelo fiasco na cerimónia de domingo no Dolby Theatre de Los Angeles. Agora foi a vez de a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood vir pedir desculpa pelo facto de os actores Faye Dunaway e Warren Beatty terem chamado ao palco produtores e elenco de La La Land – A Melodia do Amor para receber o Óscar de Melhor filme quando, na realidade, o vencedor era Moonlight.
Num comunicado em que assume que o momento mais importante da noite foi ensombrado por uma gaffe monumental, a Academia “lamenta profundamente os erros” que levaram Dunaway e Beatty (aka Bonnie e Clyde) a anunciar o prémio para o filme de Damien Chazelle e não para o de Barry Jenkins.
No mesmo documento, sublinha a “tremenda elegância” com que todos os envolvidos em ambos os filmes lidaram com o sucedido e reconhece que a experiência da noite foi “profundamente alterada pelo erro [cometido]”.
“Passámos a última noite e o dia de hoje [segunda-feira] a investigar as circunstâncias e vamos decidir o que se justifica fazer daqui para a frente”, lê-se ainda nesta declaração em que volta a referir-se que a PwC, a antiga Price Waterhouse Coopers, assume todas as responsabilidades pelas “violações dos protocolos estabelecidos” que levaram ao anúncio errado.
A empresa, por seu lado, depois de assumir as falhas através do seu próprio comunicado, veio agora, num novo comunicado, identificar o culpado pelo fiasco – Brian Cullinan, um dos funcionários a quem cabia entregar os envelopes com os nomes dos vencedores aos apresentadores ao longo da cerimónia de prémios da indústria de cinema norte-americana.
Cullinan e a colega, Martha Ruiz, estavam nos bastidores, um na ala esquerda do palco e outro na direita, e cada um tinha um conjunto completo de envelopes com os nomes dos escolhidos. Reconheceu a PwC que vários erros foram cometidos e que, para agravar a situação, nenhum dos seus funcionários foi capaz de reagir com rapidez mal o erro foi identificado.
Foram precisos mais de dois minutos para que a situação fosse corrigida, com todo o embaraço que esse compasso de espera implica – os produtores de La La Land estavam já a discursar com os agradecimentos do costume e foi mesmo um deles, Jordon Horowitz, quem se encarregou de chamar ao palco os produtores e o elenco de Moonlight para receberem o que era seu por direito, tirando o cartão com o nome do filme de Jenkins das mãos de um atordoado Warren Beatty e exibindo-o para as câmaras.
A PwC pedira já desculpas às equipas de ambos os filmes e reconhecera que tinha “falhado” no propósito de assegurar a integridade da entrega de prémios.
Ao longo do dia de segunda-feira sucederam-se as especulações em relação ao sucedido, com jornais como o Wall Street Journal a avançar com a possibilidade de Brian Cullinan ter cometido o erro por estar demasiado distraído já que, momentos antes do anúncio do Óscar para Melhor Filme, o funcionário da PwC tinha tweetado uma fotografia de Emma Stone nos bastidores segurando a estatueta para Melhor Actriz.

Na era do Twitter, parar para pensar

EDITORIAL


As réplicas do caso dos offshore são a prova (de que não precisávamos) de que as notícias vivem tempos difíceis. Mas também de como é fundamental a descoberta da verdade.
10 mil milhões de euros é mesmo muito dinheiro - mas nem era o essencial da notícia que o PÚBLICO trouxe há precisamente uma semana. O maior problema que denunciámos não está na quantia, está na falha da Administração Fiscal.
Escrevemos um Editorial sobre isso, aqui mesmo, neste espaço. Referindo que não sabíamos o que tinha falhado, quem tinha falhado e sequer se o erro teria consequências na colecta de impostos. Mas quando a notícia chegou aos políticos (e aos amigos deles), foi rapidamente contestada, reescrita, usada para fazer uma guerra - sem sequer a ler, sem esperar. Repito: sem esperar.
Ninguém está imune a esta crítica. Enquanto de um lado nos acusavam de replicar uma notícia de Abril, do outro espalhavam a ideia de uma gigantesca fuga ao fisco. Sim, as réplicas do caso das offshore são a prova (de que não precisávamos) de que as notícias vivem tempos difíceis.
Sim, a política do Twitter já chegou a Portugal e está confortavelmente instalada. Se os políticos sempre trataram os media como veículos de conveniência, hoje reduzem-nos a um título para circular nas redes sociais. É o que basta para mostrar uma ideia (e esconder o resto), é o que conta num debate que se repete a cada quinze dias, é o que chega para um (cada vez mais rápido) duelo televisivo. Quando vivem para as claques, os políticos mostram o quanto preferem o curto prazo à verdade. Daí ao que temos visto na América é uma estrada curta.
A nós, a imprensa, casos como este só obrigam a reforçar o rigor com que fazemos as notícias, o cuidado com que ouvimos os argumentos - e a coragem de os verificar. A si, leitor, deve levá-lo a ler com muito cuidado as notícias antes de ir ver o que corre nas redes sociais. É que mesmo um militante ou um membro de uma claque é também, no fim do dia, um contribuinte e um eleitor. Nunca se esqueça disso.
Feita a recomendação, sorrimos com as consequências. Neste caso das offshore, uma semana depois, já todos defendem que o Fisco deve ser obrigado a publicar as estatísticas das transferências (um passo seguro na direcção da transparência, que é a única forma de descobrirmos os erros da Administração). Uma semana depois, também o Fisco já percebeu que não lhe vamos tolerar os erros (que não nos tolera a nós). 
Quanto à polémica que sobra, ouçamos os responsáveis, esperemos pelas conclusões da Inspecção-Geral. Aí sim, voltaremos ao caso. Com os factos devidos poderemos fazer alguns julgamentos.

Parlamento “esconde” Lei que pune traficantes e compradores da caça furtiva em Moçambique



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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Adérito Caldeira  em 28 Fevereiro 2017
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Fotos da ANACA luta contra a caça ilegal em Moçambique está a registar progressos, centenas de caçadores ilegais têm sido detidos porém não existe um único traficante ou comprador detido porque a Lei de Protecção, Conservação e Uso Sustentável da Diversidade Biológica só prevê penas de prisão maior para aquele que abater sem licença. À pedido das autoridades do Ambiente e da Procuradoria-Geral da República a Lei 16/2014 foi revista pela Assembleia da República, em Novembro passado, passando a punir com cadeia todos envolvidos directa ou indirecta na devastação de qualquer das espécies protegidas da Fauna e Flora. Porém até hoje a Lei Revista e aprovada por aclamação não foi enviada para a promulgação do Presidente Filipe Jacinto Nyusi, permitindo que os traficantes, mandantes e compradores continuem impunes. O ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural pensa que o dispositivo já foi promulgado.
Poucos leitores não se recordarão da maior apreensão de troféus da caça furtiva em Moçambique, em Maio de 2015 um cidadão chinês foi encontrando com 340 pontas de marfim e 65 cornos de rinoceronte numa residência luxuosa na cidade da Matola. Também se lembrarão que os cornos de rinocerontes foram roubados do Comando Provincial da Polícia da República de Moçambique(PRM), por agentes de diferentes unidades policiais. Os troféus que sobraram foram incinerados publicamente num evento de muito mediatismo nacional e internacional.
Entretanto o cidadão chinês detido com os troféus, identificado pelo nome de Ching Dai, desapareceu. “Andei a perseguir quando é o julgamento, tinha sido marcado para 5 de Novembro e nada, desapareceu o réu e o Tribunal já não responde” revelou ao @Verdade o chefe do Departamento de Fiscalização da Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC), Carlos Lopes Pereira.
Em conexão com o roubo no comando foram detidos um inspector da PRM que também era chefe da brigada da Polícia de Investigação Criminal, um inspector principal da PRM; um subinspector da PRM, um sargento da PRM, um funcionário da Direcção Provincial de Terra Ambiente e Desenvolvimento Rural na Província de Maputo, e ainda dois civis. Não há informação sobre qualquer um deles ter sido julgado e responsabilizado pelos crimes.
“Temos uma Lei que privilegiava o traficante, condenava a 12 anos o furtivo, mas o traficante podia sair pagando uma fiança” explicou ao @Verdade Carlos Lopes Pereira.
O chefe do Departamento de Fiscalização da ANAC aclarou que além da Lei 16/2016 só punir os caçadores com prisão maior o Tribunal Supremo determinou, através de um Acórdão existente há alguns anos, que todos os crime são caucionáveis. “O caçador furtivo é apanhado com arma, com o troféu mas como o juiz lá no mato cauciona e ele sai e desaparece. (Os juízes) aplicam este princípio até aos vietnamitas que são estrangeiros”.
Justiça permissiva a manobras nos distritos que deixam caçadores ilegais e traficantes impunes
Mesmo quando são detectados pelas autoridades nas cidades, “os estrangeiros conseguem fugir do aeroporto internacional de Mavalane, ou são detidos e presos mas vai ao juiz de instrução que dá caução, ele paga e sai, entram num carro e vai-se embora”, acrescentou o nosso entrevistado que não tem dúvidas “esse uso e abuso resulta naquilo que nós estamos a ver de não termos praticamente indivíduos detidos inclusive estrangeiros”.
ArquivoO responsável pela Fiscalização da Administração Nacional das Áreas de Conservação disse também que mesmo quando as cauções são de vários milhões de meticais isso não é um problema para os traficantes e compradores, o quilo de um corno de rinoceronte custa entre 60 a 100 mil dólares norte-americanos no mercado final que é a China.
Lopes Pereira afirmou ao @Verdade que a ANAC tem estado a trabalhar em parceria com a Procuradoria-Geral da República, cuja sensibilidade para estes crimes evoluiu consideravelmente. “Numa Área de Conservação nós detemos os indivíduos que estão a violar a Lei, processamos esses indivíduos e entregamos a Procuradoria. Havia um hábito mau de entregarmos a polícia local, é evidente que em muitas destas ocasiões algumas vezes a detenção é feita com a polícia mas aquilo que se chama auto de notícia é da responsabilidade do Administrador da Área de Conservação”, declarou.
“A ANAC faz a triangulação entre a Procuradoria e a Polícia de tal forma que o indivíduo é detido preventivamente até o procurador dizer que há matéria” todavia, de acordo com Carlos Lopes Pereira, “a estrutura da nossa Justiça está de montada para que qualquer coisa que seja feita lá no distrito começa por lá e isso permite imediatamente ali manobras incríveis, nem que seja a destruição de provas. O furtivo sai pagando uma caução e desaparece, as vezes nem vai para muito longe, por exemplo é o João Valoi quando o oficial vai a aldeia buscar o Valoi existem lá vários, ele não tirou fotografia, não tirou impressões digitais, essa capacidade não existe no distrito”.
Carlos Lopes Pereira declarou ao @Verdade que durante o ano passado foram detidos 363 caçadores furtivos na área do Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo(constituído pelo Parque Nacional do Limpopo em Moçambique, Parque Nacional do Kruger na África do Sul e o Parque Nacional do Gonarezhou no Zimbabwe), contudo na parte moçambicana apenas foram presos 82 furtivos, que poderão até já não estar detidos. Paralelamente, no lado sul-africano, estão detidos 281 caçadores ilegais, dos quais 102 são moçambicanos.
Um relatório da Agência de Investigação Ambiental(EIA, acrónimo em inglês) indica que entre 2012 e 2014 foram detidos 539 caçadores ilegais em Moçambique, 17 pagaram multas, nenhum foi condenado a prisão.
Diante deste cenário a Procuradora-Geral da República, Beatriz Buchili, reconheceu no seu informe ao Parlamento, no ano passado, que a denominada “Lei da Conservação” estava longe de fazer face à destruição em grande escala das áreas de conservação e de animais protegidos e defendeu a sua urgente revisão pois a Lei é “frágil, fundamentalmente, na punição menos severa de quem detém, armazena, transporta ou comercializa espécies protegidas”.
Ministro Celso Correia desconhece que a Lei Revista ainda não foi promulgada
O chefe do Departamento de Fiscalização da ANAC recordou que entretanto a Lei 16/2014 foi melhorada e a sua Revisão aprovada pela Assembleia da República em Novembro de 2016, só que até hoje não está em vigor pois não foi promulgada.
A Lei Revista penaliza com pena de prisão maior de 12 a 16 anos e multa correspondente aquele que abater, chefiar, dirigir, promover, instigar, criar ou financiar, aderir, apoiar, colaborar, de forma directa ou indirecta, grupo, organização ou associação de duas ou mais pessoas que, actuando de forma concertada, pratique conjunta ou separadamente o crime de abate ou destruição das espécies protegidas ou proibidas da Fauna e Flora, incluindo as espécies constantes na Lista dos Anexos I e II da CITES ou a exploração ilegal de recursos minerais na Áreas de Conservação e zona de tampão.
Além destes a Lei Revista ainda prevê igual pena de prisão para quem vender, distribuir, comprar, ceder, receber, transportar, importar, exportar, fizer transitar ou mesmo detiver os animais protegidos.
Foto de Adérito CaldeiraO @Verdade questionou ao ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, porque motivo a Lei 16/2014 Revista ainda não tinha entrado em vigor, afinal outras que foram aprovadas pela Assembleia da República na mesma altura e mesmo posteriormente já passaram pelo crivo do Chefe de Estado e foram promulgadas.
“A informação que tenho é que já foi promulgada”, declarou o ministro moçambicano em conferência de imprensa após a VI Reunião que dos titulares do pelouro do Ambiente dos Países integrantes do Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo.
Diante da inexistência de uma informação pública da promulgação o @Verdade contactou a Presidência da República que revelou, “Nós ainda não recebemos a Lei do Parlamento”, disse Arsénio Henriques, o Adido de imprensa do Chefe de Estado.

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