quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mais uma cimeira de um clube danoso para África



Canal de Opinião

União Africana na capital da xenofobia (‪#‎canalmoz‬)


Beira (Canalmoz) – Depois de décadas de Independência, de acordos de todo o tipo sobre a circulação de pessoas e bens, há uma erupção de manifestações xenófobas na África do Sul, que agora acolhe a mais uma cimeira da UA.
Aquela solidariedade africana que ajudou na libertação do continente das amarras do colonialismo foi vergonhosamente enterrada.
Os fluxos de emigrantes que morrem na travessia do Mediterrâneo a caminho da Europa são o exemplo mais evidente do falhanço dos Governos de África.
Uma diáspora que cresce todos os dias é indicativa de que alguma coisa grave existe no continente. E quando os africanos vivendo no estrangeiro, com conhecimentos e experiências preciosas, não regressam a seus países nem surgem Governos fomentando o seu regresso, estamos em face de um paradoxo, atendendo a que repetidamente se ouve falar de agendas de desenvolvimento e objectivos como os de Desenvolvimento do Milénio da ONU.
Não conseguiram construir e manter sistemas de saúde que prevenissem a propagação do Ébola. Ainda não conseguiram debelar a malária.
Não conseguiram viabilizar sistemas agrários que eliminassem a fome crónica no continente.
Não conseguiram travar e evitar a eclosão de guerras civis e golpes de Estado.
Não conseguiram promover estabilidade política e económica que fossem capazes de travar ondas de emigrantes para outros continentes.
Não conseguiram dignificar os altos cargos políticos que ocupam.
Conseguiram conluiar-se para defraudar erários públicos dos seus países e organizarem o retalho e venda dos recursos naturais e minerais dos seus países.
Concidadãos de África, é difícil ter orgulho nos dirigentes que governam os nossos países.
Mais uma cimeira da UA é algo que pouco diz aos africanos, pois, de maneira contínua, esta organização continental não tem conseguido aproximar-se dos africanos e trazer aquele tipo de mudanças a que os cidadãos aspiram.
Guerras pelos recursos e limitação das liberdades dos cidadãos, delapidação dos recursos naturais em nome de uma suposta agenda de desenvolvimento, ataques graves contra o ambiente em nome da exploração de recursos cujas receitas em nada beneficiam o continente têm sido prática recorrente.
A União Africana, mesmo depois de ter substituído a OUA, Organização da Unidade Africana, pouco mudou. Nada de substancial se alterou. Continua aquele “grupo de amigos” que se autoprotegem e atentam contra os direitos políticos e económicos dos seus concidadãos.
Uma mistura indigesta de ditadores perpétuos, outros aspirantes a presidentes vitalícios, cabos-de-guerra feitos políticos, comerciantes de diamantes e de petróleo, vendedores de carvão e de urânio, com uma minoria de membros que se podem chamar de democratas e defensores dos seus concidadãos deturpam como sempre a agenda africana de desenvolvimento.
Correm a participar em fóruns internacionais supostamente para alavancar o desenvolvimento de África, mas, na verdade, nos corredores assinam contratos que lhes garantem maquias fabulosas em nome de comissões que os seus parceiros internacionais aceitam dar, como se fosse normal alguém negociar com a coisa pública para benefício privado.
A UA é necessária no concerto e contexto internacional, mas esta UA não tem credibilidade nem mostra vontade de mudar.
Presidentes que vivem procurando prolongar os seus mandatos mesmo através de vias ilícitas e contrárias ao enquadramento legal e constitucional dos seus países são de condenar, pois volta-e-meia provocam conflitos sangrentos.
Presidentes que se furtam a cumprir as suas obrigações e que transformam os seus cargos em plataformas de enriquecimento rápido e ilícito podem realizar milhões de cimeiras, mas não trarão dignidade e significância para África.
África está na cauda do mundo porque os Governos têm agendas díspares dos reais interesses dos países que dizem governar.
Quem cai rápido e barato face a todo o embrulhado que são as negociações com as corporações multinacionais e coloca os seus países à mercê do apetite voraz de tais organizações a troco de “luvas” e outras contrapartidas ilícitas jamais poderá estar à altura de promover aquele renascimento africano que os fundadores da OUA algum dia proclamaram que queriam ver realizado.
É um contra-senso constrangedor assistir à “mídia” nacional e internacional referindo-se a uma UA que nem unida está.
Implosões e guerras entre vizinhos continuam a ser a norma e não a excepção.
Há muito pouco que celebrar ou elogiar por mais uma cimeira da UA.
Saber o que está mal e recusar-se a tratar de tal mal só pode ser por agenda definida e não por outra razão.
A fraqueza das instituições judiciais do continente e a aversão que certos círculos governamentais manifestam face a qualquer tentativa de criticar procedimentos e posturas que contrariem os direitos humanos mostra de facto quem são os nossos governantes. São rápidos a lançar mão a expedientes como o da defesa da soberania e integridade territorial, mas muito lentos a levar à barra da justiça prevaricadores conhecidos.
Com frequência, observa-se que os nossos governantes a todos os níveis procuram justificar os fracassos da sua governação com alusões ao passado colonial. Cada um tem as suas culpas no cartório, mas é vergonhoso e moralmente inaceitável que se continue tentando esconder que a culpa é nossa. Quem suja e não consegue limpar não deveria chamar o colonialismo para o tribunal acusando-o de entidade que sujou.
Os desafios existentes são inúmeros e, se cada Governo fizesse a sua quota-parte, teríamos cimeiras atractivas e empolgantes. Juntarem-se por alguns dias e lendo discursos apimentados, proclamando disposição de fazer isto e aquilo, é efémero e inútil, enquanto não houver aquela coerência que torna as intenções em factos.
África e os Governos, os africanos em geral e cada um em particular têm a nobre missão de impedir que África continue o “bazar barato do mundo”.
Basta de sermos o paraíso dos lobistas do mundo.
Seria interessante ouvir-se que na cimeira se lavou roupa suja e que surgiram sinais de consenso quanto a assuntos vitais para o continente.
Antes de se falar de golpe de Estado, é preciso que se veja os Governos de África unindo-se para prevenir o seu surgimento e ocorrência. Unirem para condenar um golpe, mas nada fazer para que não existam razões para tal é o mesmo que nada fazer.
Desejamos terminar dizendo que é responsabilidade da presente cimeira travar o ciclo da vergonhosa governação que os nossos países têm conhecido.
A diplomacia hipócrita e os sorrisos de circunstância, os banquetes em que estarão os nossos presidentes e primeiros-ministros são um insulto para os afogados do Mediterrâneo e os indigentes do continente.
Seria tão bonito e honesto ver os nossos presidentes criando um fundo com parte dos seus salários para aliviar o sofrimento de idosos e crianças desamparadas nos diversos países de África.
As fundações filantrópicas em seu nome a título póstumo ou enquanto em vida ganhariam significância e respeito dos seus concidadãos. Em todo o caso, desejos de bom trabalho aos participantes de mais uma cimeira africana da UA. (Noé Nhantumbo)

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