quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A crise da água e o culto do improviso

A crise de água em Maputo, Matola e arredores destapa outra vez a sujeira do improviso que campeia nos luxuosos gabinetes que lidam com o sector. Na sua aparição nos Media, ontem, a Águas da Região de Maputo, a ARA-Sul e o FIPAG revelaram essa tendência para soluções esfarrapadas e uma grande dose de descoordenação. O improviso decorre da falta de planeamento e da crença em milagre divinos.
ARA SUL ignorou o alarme do El Ninho. Na África do Sul e na Suazilândia, a gestão de crise similar na bacia hidrográfica comum do Umbeluzi e noutras regiões em Gauteng começou em Maio do ano passado. Do nosso lado, foi se rezando para chover e não choveu;
A rede de distribuição em Maputo e Matola está cheia de cortes, donde se perdem enormes quantidades de água. Mas, como se notou nas aparições do Administrador Gildo Timóteo, a Águas da Região de Maputo não tem um inventário cabal da localização das fugas na tubagem;
Pior é que só agora, quando a ARA SUL decreta restrições, é que a AdM pretende apurar um inventário sólido dos pontos de fuga para fazer as devidas intervenções;
Como se viu, parece não haver um Plano de Contingência; até podem chamar de Continência ao "plano de restrição" mas este problema não se resume apenas a Distribuição Comercial de água, tal como é o enfoque da AdM;
Este é um problema com dimensões múltiplas; quem fala de água fala em Saneamento e, falando disso, acabamos falando em Saúde Pública. Ora, na gestão da crise estamos vendo apenas o envolvimento de entidades que se situam a montante do problema, esquecendo-se de toda a sua cadeia de valor.
A Saúde não está envolvida (para se preparar para a catadupa de doenças ligadas à higiene que podem ocorrer em grande escala) … assim como os Municípios (que deviam contribuir para minimizar o impacto da crise). O serviço de Água não está sob alçada directa dos Municípios mas com tudo o que pago de impostos autárquicos, eles deviam dar uma mão no fornecimento nas zonas onde a rede é deficiente e onde a água não chega.
Maputo, por exemplo, é uma cidade de relevo particular, onde alguns bairros têm sempre água e outros nem tanto. E quando há um corte de água, sua reposição demora entre 2 a 3 dias (o enchimento da tubagem) devido às características da rede, do relevo e da localização dos centros de distribuição. Em face disto, é difícil pensar que este modelo de restrição “um dia sim um dia não" possa ser eficiente;
Uma fonte da AdM diz-me que isso será garantido através de um “equilíbrio hidráulico”, ou seja, a tubagem não vai ficar totalmente vazia nos dias “não”. Espero para ver;
Não sei se hoje foi dia “sim” ou “não” mas meu tanquezito de 200 litros não encheu como em dias normais. Ontem também foi assim. Se amanha a tendência se mantiver, então esse equilíbrio hidráulico é um bluff!!!
Somos um povo de improviso, com dirigentes e gestores de serviços públicos que cimentam essa cultura dentro de seus mundos de mordomias e regalias. Não planificamos e improvisamos soluções mal paridas e que não abarcam todas as dimensões de problema. Basta aparecermos na TV e debitarmos um palavreado chique entre meia dúzia de termos técnicos e pensamos que convencemos o espectador. Não…senhores. Vamos lá arregaçar as mangas e fazer as coisas correctas.
(O Ministro Carlos Bonett tem a obrigação de vir explicar o que é que fez ao longo desdes dois anos para evitar que esta crise chegasse até aqui, com remendos de última hora, revelando que o sector parece não estar a ser devidamente Governado)
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12 comentários
Comentários
SilVia Jessen
SilVia Jessen Estão a mandar a população fazer uso racionalizado de água mas eles próprios cavam as ruas,rebentam os tubos e vão se embora sem nem ao menos remendar já que tudo cá na terra é remendado...
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Eliha Bukeni
Eliha Bukeni Maio e favor. Visitei um parente meu em Mbambane em Janeiro, e ja estavam sob restricoes no abastecimento de agua captada no curso do umbeluzi. E paradigmatico, que esta a montante do rio, poupa, quem esta a jusante, esbanja!
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Gulamo Mussa
Gulamo Mussa Governo&Incompetente
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Herculano Cumbi
Herculano Cumbi A QUESTAO EL QUEM VAI SE RESSENTIR DESSA CENA?mesmo estando abituado as fraquezas caracteristicas e artemanhas de ma governacao da patria amado,`ESTE El CUMULO DA Negligência governamental!
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Beto Tembe
Beto Tembe Grande artigo......estou sem palvras.....parabens Marcelo Mosse
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Antonio Serra
Antonio Serra Concordo 100%
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Carlos E. Nazareth Ribeiro
Carlos E. Nazareth Ribeiro Apoio inteiramente a proposta do Marcelo Mossesobre a "obrigação" que o ministro da área tem de explicar-nos a TODOS o que foi feito para evitar a situação actual. Sob pena de, mais uma vez, concluirmos que os últimos três governos tiveram uma maioria de incompetentes!!!
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Silvio BieMavila
Silvio BieMavila Escutei de alguem a alguns anos, que "deixar tudo para o fim, está na extrutura antropológica do moçambicano."
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Rui Costa
Rui Costa São muitos anos de Ministério que tutela a Água.... o "probrema" começa quando?... a " migração" em massa para a Cidade não permite a expansão da rede de água acordingly. Temos muita coisa responsável por isto muito avestruzismo, fora a Mãe Natureza . Não é só o Ministro da Tutela.
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Luís Loforte
Luís Loforte Opinião equilibrada, Rui Costa. Tudo, mas tudo mesmo começa com a "migração em massa para a cidade". Falta talvez dizer, com o populismo que se lhe seguiu! Como dizia Xadreque Mucavele, um músico que faleceu recentemente, de Gaza bastava ouvirem dizer que em Maputo o pão se vende em todas as esquinas, lá pegavam nas "Oliveiras" e aí vamos nós à cidade (Va tchava kurrima vanu lava - foge da lovoura esta gente)... Aconteceu com a água, mas também com a energia, onde a qualquer caixote permitem o provimento de um contador. Resultado: todos têm energia, mas de péssima qualidade. E assim se democratizou a sociedade moçambicana, tudo nivelado por baixo! Em Moçambique, não haverá ministro, ministério, fipag's e águas de Maputo que irão resolver esta regabofe!
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Ilidio Da Silva
Ilidio Da Silva ...Não planificamos e improvisamos soluções mal paridas . MM acho que improvisamos os planos desde o quinquenal ate ao micro sectorial, dai que as solucoes teram que ser tambem improvisadas. Uma pergunta que gostaria de fazer a ARA SUL qual o periodo de vigencia deste improviso, e qual sera o seu impacto de facto . Como é que paises como Cabo Verde com ilhas envoltas em aguas salinisadas resolvem o problema da escasses de agua?
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Rui Costa
Rui Costa Cabo Verde tem Liceu desde o fim do século 19.Essa é a razão.A Urbanidade cá na Terra é de anteontem. Pagam-se estes detalhes infelizmente, mais tarde.
Belizario Cumbe
Belizario Cumbe O improviso é a nossa marca como nação e quem está lá a dirigir sempre faz questão de mostrar como se faz....
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Nito Ivo
Nito Ivo Fipag e todas empresas publicas são empresas moçambicanas, gerida por moçambicanos "a maneira moçambicana". Nós como sociedade não somo lá grande coisa. Toleramos e aceitamos toda negligencia, toda corrupção e todo relaxamento dos gestores dessas empresas, tal como toleramos nos políticos. Estas empresas são a nossa medida. Sempre que seja necessário prestar serviços internacionais ai o padrão de exigência aumenta tal como se vê na HCB. Fipag foi criada para trabalhar exactamente como tem estado a fazer. Isso vale para todas empresas publicas.

Pode-se fazer uma analogia com as visitas em algumas casas. Há aquelas visitas que "merecem a melhor loiça da estante" e há aquelas que são servidas nos utensílios correntes. Nós como sociedade temos sido servidos com aqueles pratos velhos de plástico porque é o que merecemos.
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Jose Pedro Damiao
Jose Pedro Damiao Uma imagem com um grande texto.

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