quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Carta ao "Tio Dimene”


Canal de Opinião por Adelino Tomóteo
Perdi a inocên­cia muito cedo. Aos quatro anos, era já eu um veterano candidato à vaga da orfandade. Perguntavam-me pelo meu pai. Responder era abrir uma fe­rida que não cicatrizará nunca, pelo que só aos trinta e três anos muitos tro­peçaram com a minha real história: o meu pai foi fuzilado, lá para o Niassa.
A crueldade dessa história transformou-me. A discrição é o meu modo de vida. A minha verdadeira profis­são é essa. Não dá canseira à mente nem aos ossos. Assumi esse ofício antes de renascer, pois morri umas quarenta vezes. A minha sofrida mãe contou-me: nasci muito poupado em
carnes. Um quilo. Amassaram-me, por isso, já a contar com o previsto futuro do meu ofício: brandura nos modos e imensas reservas. Nunca me esbanjo em público. Ruídos e al­gazarras eram com os outros amigos. A minha verdadeira casa é o silên­cio. Nunca o assumi antes, pois faço pouco caso disso, até agora que deci­di contar-vos essa estória. É assim: fiz o ensino primário em tempo recorde, e, entusiasmado com isso, o Tio Di­mene ofereceu-se naqueles anos to­dos a brindar-me com um presente, honrando aquilo que para ele era um prodígio, para mim nem tanto. Era óbvio que lhe não comunicava dos
sucessos, assim o Tio Dimene, por portas e travessas, extraía das suas fontes o resultado do meu aproveita­mento final. Aquilo que ele augurava ser o seu direito de progenitura. Não é que ele não o soubesse do meu vínculo profissional. Fazia caso era de curar a ferida que sangrava. Com dotes de médico e de antigo inspector, o Tio Dimene apanhava-me em falta. Tanto que, numa das vezes, o Tio Dimene cobrou-me assim:
-Vens ter comigo à "Radiolar". Eu espero-te às três da tarde.
Não se faz esperar nunca a um adul­to. Tinha sido essa a lição, lá em casa. A mãe trabalhava na Loja 1 da "Pescom",
na Rua Correia de Brito, a escassos cem metros da "Radiolar". Em suma: éramos duplamente vizinhos. Em ambos os casos, a idêntica distância.
Encontrava o Tio Dimene do outro lado do balcão. Era um comércio de móveis. Lá passávamos os dois, em suaves vagares comuns. Alegres cal­mas. Merendíssimos lanches. Depois, separávamo-nos. Amigavelmente. O Tio Dimene era esse amigo com que eu ficava em animadas conver­sas sobre ascetas curiosidades. O fu­tebol era uma delas. Como o era os seus áureos tempos de guarda-redes. As conversas eram sempre entremea­das de largos silêncios, com gracejos ao Paposseco, como o cunhara ele ao meu irmão caçula. Donde so­bressaíam as suas afectividades. Ti­nha ele outra profissão, pensava eu, a de amante do Têxtil do Púnguè.
- A fé de cristo, este ano o Têxtil do Púnguè traz o campeonato nacional para a Beira!
-Não sei, Tio-respondia-lhe eu, man­tendo as minhas profissionais reservas.
Era o ano de 1981. Tinha eu onze anos. Estas e outras conversas e mo­mentos mantive-os sempre numa caixa de ouro das minhas recorda­ções. À medida que avanço para a maturidade, torna-se-me difícil man­ter o vínculo de lealdade à minha profissão de nascença, por isso me recordo de regressar ao Tio Dimene e de vê-lo entusiasmado com os fenomenais preparativos da vitória. "Doa a quem doer, o Têxtil do Pún­guè é Campeão Nacional", escreveu ele a apoteótica frase num pano, em letras gordas. E lá fomos ao futebol.
As tardes do futebol eram assim. Muito emocionais. De apostas largas e prognósticos imprevisíveis e miste­riosos. As tardes de futebol eram de  azáfama e bulício dos adeptos, que, prostrados sobre as vibrantes banca­das, faziam paralelas partidas, dife­rindo delirantes remates e pontapés sobre o companheiro ou convivas do lado e da frente. Os anti depres­sivos e sedativos eram os amendoins, cujas cascas atapetavam as banca­das. No meio das jogadas impróprias para cardíacos, vi eu o estádio sofrer de asma. Os seus pulmões ofegantes, para cima e para baixo. Numa amea­ça constante de se fundir connosco.
Talvez seja isso. Uma grande pena­lidade contra o Maxaquene, em que o Lucas II foi chamado a cobrar, decidiu a partida. A memória tem a fotografia do Nuro Americano a duras penas de deter a trajectória da bola, que se lhe passou por uma nesga. A multidão a vibrar sobre as bancadas do Ferroviário da Beira, ameaçadas de desabarem:
- Gooooooooooooloooo!
Vi o Tio Dimene a sacar da sua pancarta, a festejar o golo com o Tio Antó­nio Tanque, sem nenhuma discrição. As flautas começaram a troar. Nós, os mwana-mwanas, igualmente entusias­mados, a tentarmos reproduzir a joga­da que causou o perigo e o castigo fatal.
Fomos para a casa no Toyota do Tio Tanque. O Tio Dimene apareceu no bairro erguendo ao alto a pancarta. O Têxtil era dos nossos tios. Mas nós festejámos com eles, pois a vitória passara a pertencer-nos. Não a arran­cámos da felicidade deles, tomámo-la para nós, unimo-nos àquele particular de glória, pois o bairro era a nossa fa­mília alargada. O nosso amigo Jordão Cazembe, veterano na indiscrição, era o mastro, quando o Tio Dimene se extenuou. Levantava a pancarta.
Eu, na minha fiel discrição, alegrava--me. Não iria discrepar, disse cá para os meus botões. A vitória do Têxtil era
um cajado não só para o Tio Dimene, mas da Beira inteira. Havia naquilo um sabor de quem ganha a dignidade. O levantar do chão. O ganhar da com­postura. Era coração com coração. To­dos os sentidos imergidos nas nossas afinidades. Também na dor comum, que nunca expressamos por palavras, não porque não existam, mas por ser tão óbvio de que as adversidades co­muns as sofrêramos juntos. Primei­ro, na morte de Jojó. Ele olhou para mim. Eu olhei-o fixamente, até que se lhe desprendeu uma roliça lágrima no olho e começou a contar. Claro que o senti. Quando me viu, disse: Vocês  cresceram  juntos.
Certamente ele encontrou em mim aquele espelho com que se desocultam emoções.
Os anos passaram, com o sol da nossa alegria. Até que, no regresso de uma das minhas largas ausências volto a encontrá-lo. Ele que tanto tra­balhou para curar a minha cicatriz que nunca cicatrizou, agora se me abriu anunciando que outra ferida cresceu no lugar onde tínhamos as nossas feridas abertas, sem sararem. A morte tinha-nos derrotado mais uma vez. Eu olhei-o fixamente, de­pois que me anunciou o Julinho tinha ido naquela estrada. Naquela estrada que ele foi e onde se dobra a esquina.
O Tio Dimene dissera-me estas pa­lavras, que, embora sem me apazi­guarem, as retive, naquele fortuito momento de derrota, em que se sen­te a saliva amarga no céu-da-boca.
Abraçámo-nos. Abraçámo-nos. Ele sem me dizer mais nada. Onde ele estava em mim, eu estava nele. Eu, sem lhe dirigi r mais um único monos­silábico, por evidente que ele capta­ra onde eu lhe sentia e vice-versa.
O coração inchava. (AdelinoTimóteo)
CANALMOZ – 11.01.2017

Urge trazer a "vergonha" para o vocabulário governamental

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E como con­sequência teremos gente demitindo-se, e outra sendo exonerada, expulsa, detida, acusada, julgada, condenada.
Num país normal, isso aconte­ce todos os dias, e as coisas andam.
Não se pode aceitar que funcionários governamentais recebam os seus salários atempadamente, mesmo quando o que era suposto fazerem não é feito. Manter pca's de empresas pú­blicas recebendo anualmente so­mas colossais, quando tais empre­sas são deficitárias, falidas, jamais faz sentido e só pode acontecer em situações de troca de favores, nepotismo, corrupção, crime orga­nizado   e    negligência    criminosa.
Ter ministros quase vitalí­cios, mas que jamais produzi­ram resultados palpáveis, só pode ser por acomodação política.
A incompetência galopante que se nota a olho nu está ficando perigosamente crónica, o que põe em risco toda uma sociedade e país.
Moçambique está-se tornando um país de técnicos incompetentes, por­que a partidarização do aparelho de Estado elimina a concorrência.
As crises cíclicas que se vivem de­vem ser vistas como produto de um modelo político que se distanciou propositadamente da meritocracia.
Uma lavagem cerebral executada através de uma insidiosa campanha de propaganda política apoiada por um sistema de repressão requinta­do produziu gente obediente e dó­cil. São estes funcionários que se limitam a obedecer a ordens, mes­mo quando se impõe dizer "não".
A mediocridade generalizada e a falta de soluções, mesmo para ques­tões simples, denotam falhas críticas no sistema nacional de educação.
Ao mesmo tempo que se vive a turbulência devido à associação de crise político-militar e finan­ceira, o país enfrenta uma crise de valores morais, éticos e culturais.
A tentativa de impor um regime marxista-leninista em que a religião era perseguida não trouxe a tal moral re­volucionária que alguns propalavam.
Corroída moralmente, a so­ciedade ficou desnorteada, e passou-se a emular até o diabo, desde de que tivesse dinheiro.
Quando se fala de falência de em­presas, também se devia dizer que toda uma sociedade está moralmente falida.
Não só o país está em crise, mas existem figuras que teimam em esca­motear os factos, colocando-se sem­pre na posição de "dirigentes" imacu­lados, que jamais cometeram erros, mesmo estando documentado que, enquanto dirigentes de importantes pelouros governamentais, falharam.
Caricato, mas triste, que existam moçambicanos tão "superdotados" que a simples menção de ouvirem a falar de erros durante os seus anos como governantes se apavoram.
Mas lamentável é que canais tele­visivos nacionais continuem a dar es­paço nobre a essas pessoas, como se não houvesse mais gente que pense neste país. Para tudo o que seja data comemorativa, são sempre os mes­mos que são chamados a intervir, como se fossem os donos da verdade.
Este país está regredindo em to­dos os domínios porque há gente que se supõe especial, mais mo­çambicana do que os outros, só pelo facto de ter estado em Dar es Salaam durante alguns anos.
É urgente desmistificar he­roísmos que jamais o foram.
Admitamos com humildade que muito do pretendíamos era um erro e que jamais foi verdade.
O país precisa de encarar os seus problemas e não a invenção de pro­blemas onde estes não existem.
Os falsos constitucionalistas e de­mais gente envolvida na rede de "aca­démicos, analistas e comentaristas" ao serviço do branqueamento da mentira deve merecer a atenção dos moçam­bicanos. Denunciar "pronunciamen­tos" lesa-pátria e apelos à violência politicamente motivada cabe a todos.
Tenhamos vergonha de es­tragar este belo Moçambique.
inaceitável continuar na cau­da de todos os "rankings" mun­diais.(Noé Nhantumbo)
CANALMOZ – 11.01.2017

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